-Você não me engana, gata... você é mor filhinha de papai
-Eu tive outros que me ensinaram...
-Que outros?
-Eram...Lobos, Lobas...
-Então a gatinha é uma Loba? então uiva pra mim, vai lobinha
-Não uivo quando mandam. Devia saber, se eu tivesse obedecido demais, não seria uma Loba. Só pude conhecer o luar porque dentro de mim havia o uivo latente; as lobas só uivam pro luar ou para outros lobos e lobas.
-E eu não sou seu lobão, cachorrinha?
-Não, não sou cachorrinha, eu disse Loba. E... não! lobão, não! Cachorrinho. Você é muito domesticável, meu amor. Você não se permite, você não tem coragem, você não passa de um poodle medroso e carente.
Téo arregala os olhos e se afasta de Helena, que até agora aceitava os carinhos sufocantes do homoleque, que lhe tentava seduzir tão desastrada e desesperadamente, com certo nojo e cautela. Moleques costumam gostar muito de medalhas. Helena odeia exibicionismos. Aliança, sequer. Além de tudo, puta coisa ultrapassada... De repente aneis... mas aliança do tipo, dourada, tal, Casa das Alianças? Jamé.
-Era brincadeira.
-Por que você não encontra um escudo melhor pra se defender dos seus hormônios de puberdade que continuam sendo tão ativos na sua idade? Brincar não é não entender, Téo.
Téo para de novo, ri descontraído, pega nas mãos de Helena e diz:
-Ah, Helena! você é tão engraçada!
Helena encara os vidros dos olhos de Téo como a um cervo amedrontado que corre e para a alguns metros e fica olhando, embabaquecido; Helena caça aqueles olhos como um ataque, com uma mordida de dor- bem nos olhos- mas muito rápido, tão rápido que logo depois puxa as mãos suas das mãos dele com força, com certeza, vira-se de lado na cadeira de madeira rústica, abre a bolsa, puxa um cigarro do maço guardado em uma bolsinha de tecido (cigarros que ela mesmo enrolara, mais cedo), arranca a caixa de fósforos e acende, colocando o palito em diagonal com a lixa, o fósforo, que leva ao cigarro que já está na boca, tragando. Coloca os dedos, já juntos, no cigarro e apaga o fósforo no copo de bebida fraca de Téo. Helena solta alguma fumaça, traga novamente e, antes de soltar outra, já desapareceu deixando, com um soco na mesa, algum dinheiro que pagaria qualquer coisa que Téo poderia já ter-lhe dado.
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