domingo, 11 de dezembro de 2011
pensados pescados
O Dom
talvez eu não tenha o Dom. Na verdade, acho que ele nem existe. Em mim, o Dom é a inspiração. É. E se assim é, não posso tê-lo; ele transita, numa tarde, no café, num cigarro, no violão, na canetas e nos lápis de cor. Não me diga em folhas em branco que folhas em branco são o inverso de qualquer inspiração. Elas são inspiracida.
O Corte (um episódio no barbeiro)
O homem entrou jovem. Seus cabelos eram quase que encaixados no que se podia chamar de compridos. Mas não eram exatamente compridos. Mas ele tinha um topete, mas daqueles topetes típicos dos jovens que dentro de si ainda não têm tamanho suficiente pra olhar pro mundo - daí põe um tufo de cabelo pra ver se ajuda na coragem. O homem, que a essa altura não era também exatamente o que se dizia por aí ser um homem, carregava consigo óculos escuros. Quando saiu da barbearia, deixou metade de si no chão; aquela metade que o quase-homem trouxe de fora e ainda deixou crescer em cima de si e fez-se acreditar ser parte do que era. Ele estava tão careca. Ainda não careca, mas careca. Quase nu. Colocou os óculos escuros. Ele não sabia crescer dentro de si, e agora, acabava de perder seu capacete espartano, com direito a peruquinha de rabo de vassoura.
E às vezes eu sou todo o ódio que eu odeio.
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